O controle sobre a origem do gado vendido aos frigoríficos ganhou uma nova dimensão em Rondônia. Dados do terceiro ciclo de auditorias do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, conduzido pelo Ministério Público Federal (MPF), apontam 40.040 animais classificados como inconformes entre 239.083 bovinos analisados em sete frigoríficos do estado.

O número representa 16,7% da amostra auditada. As operações verificadas correspondem a compras realizadas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024 e fazem parte de uma fiscalização conjunta em seis estados da Amazônia Legal.

O dado, porém, precisa ser interpretado com cautela: para o MPF, a classificação como “inconforme” indica uma situação que exige verificação e não significa, isoladamente, que o animal tenha origem ilegal comprovada.

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Frigoraça teve maior percentual

Entre os frigoríficos que apresentaram auditoria, os resultados foram bastante diferentes.

A Frigoraça registrou o maior índice: 6.499 dos 10.736 animais analisados foram classificados como inconformes, o equivalente a 60,5%.

No BMG, foram 22.593 inconformidades em 52.625 animais, ou 42,9%. O Distriboi apresentou 9.549 casos em 33.054 animais, correspondendo a 28,9%.

Na JBS, foram identificados 1.399 animais inconformes entre 76.414 analisados, percentual de 1,8%.

Já Marfrig, Minerva e Vale Grande não tiveram animais classificados como inconformes nas amostras submetidas à auditoria.

Entre as ocorrências identificadas aparecem desmatamento ilegal, embargos ambientais, problemas relacionados ao Cadastro Ambiental Rural (CAR), unidades de conservação, terras indígenas e inconsistências na Guia de Trânsito Animal (GTA).

Reprodução
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Desmatamento está entre os principais problemas

Dos 40.040 animais classificados como inconformes, 9.352 estavam relacionados a desmatamento ilegal.

Outros 5.854 casos tinham relação com áreas embargadas e 2.018 com unidades de conservação. Também foram identificadas 20 ocorrências envolvendo terras indígenas.

A maior quantidade, entretanto, foi registrada na categoria de compras não conformes, com 22.326 animais. Outros 10.775 casos estavam relacionados a produtividade, CAR e alterações nos limites dos imóveis.

Empresas sem auditoria chamam atenção

O levantamento também revela um segundo ponto de preocupação.

Em Rondônia, 34 frigoríficos foram convocados para o terceiro ciclo, mas apenas sete concluíram as auditorias. Apesar disso, os sete estabelecimentos representam 74,2% do volume de gado comercializado para abate ou exportação no período analisado.

Entre as empresas que não apresentaram as auditorias exigidas, o MPF fez uma análise automatizada de 1,61 milhão de animais. Desse universo, 602.186 foram classificados como inconformes, ou 37,2%.

O resultado inclui o Irmãos Gonçalves, que teve 260.952 animais classificados como inconformes em um universo de 800.141, e outros frigoríficos com percentuais elevados.

Assim como no grupo auditado, o MPF ressalta que esses números servem como indicadores para investigação e checagem, e não como prova definitiva de ilegalidade.

Rondônia teve cobertura maior que Acre e Amazonas

Apesar da quantidade de frigoríficos que não concluíram a auditoria, Rondônia apresentou uma das maiores coberturas entre os estados analisados.

O percentual de 74,2% do volume comercializado ficou abaixo apenas de Mato Grosso, com 82%, e Pará, com 89,1%. Tocantins atingiu 60,3%, enquanto Amazonas ficou em 41% e Acre em 33%.

O resultado mostra que a fiscalização já alcança uma parcela significativa da cadeia, mas ainda existe uma fatia relevante do mercado que não passou pelo mesmo nível de verificação.

Tecnologia permite cruzar dados de gado e propriedades

Uma das mudanças deste terceiro ciclo foi a ampliação do uso de tecnologia para analisar a cadeia pecuária.

O MPF utiliza o Mappia-TAC, sistema que cruza automaticamente informações do Cadastro Ambiental Rural e das Guias de Trânsito Animal. A ferramenta também permite confrontar os dados das propriedades com informações de monitoramento do desmatamento.

Com a automação, o órgão consegue identificar com maior rapidez propriedades ou movimentações que apresentam sinais de irregularidade e direcionar a fiscalização para os casos que exigem análise mais detalhada.

Próximo alvo são os fornecedores indiretos

A fiscalização também está avançando para uma etapa mais difícil de rastrear: os fornecedores indiretos.

São propriedades que fornecem gado para outras fazendas e que, posteriormente, vendem os animais diretamente aos frigoríficos. O objetivo do MPF é evitar que um animal associado a uma área irregular seja “regularizado” ao passar por outra propriedade antes de chegar ao frigorífico.

Em março, o MPF anunciou novas regras para ampliar esse monitoramento na Amazônia. A medida prevê a incorporação de novos procedimentos ao protocolo utilizado pelos frigoríficos signatários do TAC.

A estratégia ganha importância porque o segundo ciclo de auditorias já havia apontado uma diferença significativa entre empresas que aderiram ao TAC e aquelas que não estavam submetidas ao mesmo nível de controle: os frigoríficos signatários apresentaram 13 vezes menos irregularidades nas compras analisadas.

O que os números mostram

O resultado do terceiro ciclo não significa que 40 mil bovinos tenham sido comprovadamente provenientes de áreas ilegais. O que o levantamento mostra é que 16,7% da amostra analisada em frigoríficos auditados apresentou algum tipo de inconformidade que precisa ser verificada.

Ao mesmo tempo, os dados revelam uma diferença importante entre as empresas que cumpriram o processo de auditoria e aquelas que não apresentaram os relatórios exigidos.

Em Rondônia, a fiscalização já alcançou 74,2% do volume de gado destinado ao abate ou à exportação. O desafio agora é ampliar essa cobertura e, principalmente, acompanhar a trajetória do animal antes de chegar ao fornecedor direto do frigorífico.

A lógica do programa Carne Legal passa a ser cada vez mais abrangente: não basta identificar quem vendeu o boi ao frigorífico; é preciso rastrear de onde o animal veio e por quais propriedades passou antes de entrar na cadeia formal.